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UM BATE-PAPO SOBRE GAMES
(Entrevista do Dr. Marco A. Arruda ao Jornal A Cidade de Ribeirão Preto)

Jornalista: Como jogos de videogame e computador podem auxiliar no desenvolvimento neurológico da criança e do adolescente?
Dr. Arruda: Determinados jogos podem treinar e aperfeiçoar funções cerebrais específicas bastante utilizadas no aprendizado como, por exemplo, a capacidade de atenção, a velocidade de processamento de informações e de visão espacial. Estas funções são importantes não apenas para o aprendizado da criança e do adolescente, mas também para outras atividades da vida diária.

Jornalista: Quais estilos de jogos têm maior eficácia em relação ao desenvolvimento neurológico da criança e do adolescente?
Dr. Arruda: Os pais devem escolher games que explorem as funções acima referidas e que para isso não utilizem o apelo à violência. A violência explorada por muitos desses jogos é extremamente prejudicial para o desenvolvimento da criança e do adolescente, como pessoa e como ser social. Várias pesquisas mostram que esse tipo de game dessensibiliza a criança e o adolescente em relação à violência, o que significa dizer que banalizam a violência, o jogador se acostuma com ações de violência e é recompensado por essas ações. Existe o risco destes comportamentos serem incorporados pela criança ou adolescente na sua vida real.
Dois pesquisadores americanos da Harvard avaliaram os games comercializados nos Estados Unidos e constataram que 64% deles apresentavam algum apelo à violência (Thompson & Haninger, JAMA, 2001).
Isso não é diferente aqui no Brasil, portanto, os pais devem escolher bem, de preferência jogar o game e analisá-lo antes de comprar.

Jornalista: Existem pesquisas que avaliam o uso de jogos interativos na educação, cite um exemplo que quantifique as informações relacionadas ao tema.
Dr. Arruda: Estudos publicados este ano, conduzidos nas Universidades de Tóquio e Kurume, mostram um expressivo aumento da atividade no córtex pré-frontal (região do cérebro localizada atrás das nossas órbitas) em crianças durante os games. Esta região do cérebro é muito importante para nossa capacidade de atenção, funciona também como um breque do comportamento e é responsável pela nossa capacidade de organização e planejamento, entre outras importantes funções.
Outros estudos mostram que determinados métodos interativos que simulam games, denominados “neurofeedback”, melhoram a capacidade de atenção e determinados tipos de memória em crianças com o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
No entanto, ainda faltam pesquisas que comprovem diretamente o efeito positivo de determinados games sobre o desempenho escolar em crianças normais. Na verdade esta área é muito nova e os estudos estão apenas começando.

Jornalista: Como os pais podem auxiliar na escolha e na utilização do computador e videogame para que ocorra este desenvolvimento?
Dr. Arruda: Escolhendo “games do bem” e evitando excessos. Chamo de “games do bem” aqueles que não passam mensagens de violência e treinam funções cerebrais importantes como a atenção, a rapidez de raciocínio e a organização visual e espacial. Evitar excessos é colocar limite de tempo para os games no dia a dia da criança.

Jornalista: Em sua opinião, a escola adotar jogos interativos junto ao método de ensino agrega ou prejudica o desenvolvimento da criança e do adolescente?
Dr. Arruda: Só agrega, é ir de encontro à linguagem dessa geração que cresceu com os games e o computador. É uma grande chance para a Educação que sofre uma concorrência desleal com os games. Por que digo isso? Porque os games oferecem várias experiências e sensações que os alunos não encontram numa sala de aula formal. Nos games as crianças e adolescentes experimentam uma estimulação visual, auditiva e tátil muito grande, além da ampla possibilidade de interação. Além disso, recebem recompensas imediatas, ao alcançar determinado objetivo são premiados com bônus e mudanças de fase. Eu te pergunto, a sala de aula nos moldes atuais, oferece isto? Oferece experiências sensoriais tão interessantes e recompensas imediatas? Dependendo do contexto, estudar pode não dar recompensas imediatas... Por isso digo que hoje em dia a Educação formal sofre uma competição desleal com os games e a mídia de uma forma geral. Iniciativas como essa, de utilizar jogos interativos no ensino, a meu ver são muito bem-vindas, devem ser estimuladas e só agregam valor.

Jornalista: Tem tempo certo e hora certa para este tipo de atividade?
Dr. Arruda: Vale aqui a assertiva de nossos avós de que “tudo em excesso faz mal”. A criança e o adolescente desse novo milênio precisam também de atividades “outdoor”, fora de casa, precisam da pipa, das bolinhas de gude, do pega-pega e dos esportes em geral. Está comprovado que atividade física regular melhora o desempenho acadêmico da criança e do adolescente. Além disso, estas atividades também expõem a criança à resolução de problemas, exercitando nosso mais novo conceito de inteligência, a capacidade de resolver problemas. Considerando as várias atividades além da escola, que a criança de hoje tem, eu diria que os pais deveriam colocar um limite máximo de uma hora ao dia para os filhos jogarem games e, naturalmente, só depois dos deveres cumpridos.

Dr. Marco Antônio Arruda
Neurologia da Infância e Adolescência
Mestre e Doutor em Neurologia pela Universidade de São Paulo
Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia
Membro do Comitê de Cefaléias na Infância e Adolescência da Sociedade Brasileira de Cefaléia
Membro do Subcomitê de Cefaléias na Infância e Adolescência da International Headache Society
Diretor do Instituto Glia, Ribeirão Preto, São
Coordenador do Projeto Atenção Brasil